No
século XIII, surgiu no firmamento judaico da Espanha uma nova estrela que
brilhou com poderosa luz. Um dos principais autores da literatura talmúdica da
Idade Média, cabalista, filósofo e escritor renomado. Mais conhecido por seus
comentários místicos do Pentateuco, destacou-se no campo da lei rabínica além
de ser um poeta litúrgico de grande expressão.
Rabi Moisés Ben-Nachman, o Ramban, mais conhecido como Nachmânides nasceu em
Gerona, na Espanha, em 1194, (passando a ter o sobrenome de Gerondi) e morreu
em Haifa, Eretz Israel, em 1270. No século XII, a Espanha foi o principal
centro cultural judaico do mundo conquistando um lugar importante no mundo
judaico através de grandes personagens, como Maimônides, Abraham Ibn Ezra,
Yehuda Halevi, entre outros.
Aos 15 anos o Ramban, foi considerado uma autoridade em Talmud, já que havia
escrito vários tratados sobre o tema, sendo elogiado pelos sábios de então,
que consideravam seus trabalhos de alto nível. Sua mente brilhante, sua lógica
e capacidade de pesquisa - estabelecendo ligação entre os mais variados temas
- tornou-se visível desde sua juventude, quando se dedicou também ao estudo da
Ciência e da Filosofia, além de ter-se graduado em Medicina e em várias
línguas. Nachmânides exerceu durante a maior parte de sua vida sua profissão,
a medicina. Erudito, seu conhecimento era inigualável, na época, referiam-se a
ele como Há-Rav, "Rabi" ou "Professor". Os rabinos sefaraditas de todas
gerações consideram-no seu grande mestre.
Seus comentários sobre o Talmud, semelhantes aos dos tosafistas franceses,
embora mais pragmáticos, garantiram-lhe a reputação de maior talmudista
espanhol. Sua obra Torá ha-Adam, sobre os ritos fúnebres, possuía base
cabalística e abordava a natureza da neshamá, alma. Nachmânides produziu, pelo
menos, cinqüenta obras, na maior parte comentários sobre o Talmud e Halachá.
Aprofundou-se na Cabalá, pois era fascinado pelos ensinamentos místicos
segundo os quais cada palavra e cada letra da Torá continham os segredos mais
profundos da Criação. Seu objetivo era aproximar a Cabalá da corrente
principal do judaísmo ortodoxo, especialmente na Espanha. Nachmânides tornou
possível aos cabalistas traçar a origem de suas idéias à Torá e ao Talmud,
mantendo as melhores e mais antigas tradições judaicas. Apesar de nenhum de
seus trabalhos ser especificamente cabalístico, ele faz alusões completas ao
sistema, sobretudo no comentário da Bíblia.
Em 1238, em Montpellellier tentou ser mediador entre os que apoiavam a obra de
Maimônides e os que a combatiam. Maimônides, que vivera no século anterior,
era um homem de grande erudição, interessado no Talmud assim como na Medicina.
Elaborou um comentário sobre a Torá, dando ênfase à razão e à lógica. Na
época, os racionalistas é que eram os "inovadores", levando para o estudo da
Torá as idéias dos gregos antigos.
Enquanto Maimônides explicava o judaísmo pela razão e lógica, Nachmânides o
explicava pelo sentimento e afirmava que certas partes da Tora escapam à
qualquer explicação racional. A Torá e o Talmud constituem a autoridade
suprema mesmo quando seu ensinamento parece contrariar o ensinamento da
filosofia. "Aprender com anciãos é beber um velho vinho amadurecido pelos
anos", teria dito,
Para Nachmânides três idéias são fundamentais: acreditar na Criação, na
omnisciência de D'us e na Providência Divina. Corpo e alma, ambos oriundos de
D'us, são igualmente bons. Adepto das doutrinas místicas e da Cabalá, é a
estas que recorre para explicar certos antropomorfismos bíblicos (atribuir a
D'us formas ou atributos humanos, para facilitar a compreensão de conceitos
espirituais). Seus comentários eram claros, simples e repletos de devota
instrução.
Estava mais interessado na atitude religiosa do judeu do que na profundidade
de seu pensamento.
A disputa de Barcelona
Entre os problemas mais sérios enfrentados na época pelas comunidades judaicas
da Europa, havia os debates públicos nos quais as duas religiões, judaica e
cristã, se "enfrentavam publicamente" para cada uma expor suas crenças. Os
judeus, com base em sua longa experiência, haviam aprendido a reconhecer os
sinais de perigo iminente. Apesar de saber que tais debates nada tinham a
oferecer de positivo para os judeus, eles eram obrigados a comparecer para se
defender das acusações insidiosas e provocantes de seus adversários cristãos.
A Igreja Católica impunha sérias limitações sobre o que os judeus podiam dizer
e castigos brutais eram administrados aos que não obedeciam as regras
impostas.
O processo do debate público começou em Paris, em 1240, em conseqüência direta
da proibição e banimento do Talmud pelo papa Gregório IX. Luiz IX, Rei da
França, cruzado e anti-semita, foi o único monarca da Europa a colaborar com a
campanha de Gregório. A idéia dos debates partiu de padres católicos que
acreditavam poder converter os judeus em massa derrotando perante seus olhos
seus maiores rabinos e líderes. Na Espanha, ao menos durante algum tempo, os
debates eram mais genuínos.
Em 1263, Barcelona virou palco de um debate público. O rei Jaime I de Aragão
encenou em grande escala o mais famoso dos debates que passou a ser conhecido
como a "Disputa de Barcelona". A idéia
adveio de um converso, Pablo Christiani e foi apoiado por Raimundo de
Penagoste, chefe da Inquisição Dominicana em Aragão, e por Pedro de Jancia,
destacado franciscano espanhol.
Os judeus possuíam um único porta-voz, porém o melhor: Nachmânides, culto,
fluente e autoconfiante.
Nachmânides exercia uma grande influência sobre a vida pública judaica na
Catalunha. Suas habilidades eram extremamente úteis, se não de todo
indispensáveis, para os governantes cristãos. O rei Jaime I de Aragão
(1213-1276) o consultava sempre que necessitava.
No tempo de Nachmânides, os judeus da Espanha podiam, ainda, com razão, se
considerar como a comunidade intelectualmente superior.
O Ramban relutara em participar do debate, pois achava que a discussão não
seria imparcial, e o simples fato de que estava sendo realizado era, de certa
forma, algo execrável. Mas acabou concordando em ir a Barcelona por causa de
seu estreito relacionamento com o rei Jaime, que lhe garantira completa
liberdade para discursar durante o debate. O Rei Jaime era um homem muito
versado que empregava muitos judeus como funcionários e ignorava as exigências
papais de se livrar de seus burocratas judeus.
O ataque cristão era destinado a mostrar, a partir de passagens agádicas e
homiléticas no Talmud, que o messias já teria vindo. Segundo Christiani, Jesus
era tanto humano como divino e morrera para salvar a humanidade e,
conseqüentemente, o judaísmo havia perdido sua razão de ser. O Ramban
contestou o significado atribuído as passagens citadas mostrando que os
argumentos de Christiani e de seus colegas dominicanos sobre o messias, não
eram válidos.
Nachmânides apontou o fato de que as profe-cias bíblicas não se confirmaram
com Jesus, portanto este não podia ser o Messias. Ele não trouxera paz ao
mundo. Segundo, o Profeta Isaias após a vinda do Messias "uma nação não
levantaria a espada contra outra nação, nem praticaria a guerra" (2:4) porém
isto não aconteceu e salientara Nachmânides
"Desde esta época, o mundo foi preenchido de violência e injustiça e os
cristãos derramaram mais sangue que todos os outros povos". Apontou
também o fato de que Roma, que outrora dominara o mundo, havia entrado em
declínio no momento em que aceitara o cristianismo.
Por este e outros argumentos expostos nos quatro dias do debate, Nachmânides
concluía que o ju-daísmo ainda tinha razão de ser, a Torá permanecia valida já
que nada mudara no mundo para tornar os ensinamentos da Torá supérfluos.
Portanto os judeus tinham direito de manter sua fé. O clero cristão, ciente de
que o debate resultaria contrário a suas idéias, convenceu-se de que seria
melhor se os procedimentos terminassem sem uma conclusão. No Shabat seguinte,
o rei compareceu à sinagoga, fez um discurso, felicitou Nachmânides,
declarando que "nunca havia ouvido antes uma causa tão bem defendida" e, em
sinal de grande estima, ofereceu-lhe um presente de 300 moedas.
No ano que se seguiu à disputa, Raimundo de Penaforte, através do papa Clément
IV, conseguiu condenar Nachmânides por ter publicado na obra - Sefer HaVikuach
- seu relato imparcial sobre o debate. Apesar da proteção do rei formou-se
então uma comissão especial para julgar o Ramban por blasfêmia.
Nachmânides teve de deixar a Espanha para sempre - provavelmente com a ajuda
do rei - abandonando filhos, família e yeshivá, indo para Eretz Israel. Assim,
a Espanha judaica perdeu um de seus pilares.
No fim do verão de 1267, chegou Nachmânides a Eretz Israel e em 9 de Elul a Jerusalém, terra com a qual sonhava. Em seus trabalhos, afirmava que era um dever sagrado de todo judeu colonizar a Terra Prometida. O destino pavimentou o seu caminho para que preenchesse tão importante preceito.
Infelizmente, Jerusalém, de cidade de passado tão glorioso e luminoso, era uma
cidade em ruínas. Superando sua grande tristeza e decepção começou a
reorganizar a vida da comunidade judaica. A primeira medida que tomou foi
fundar uma sinagoga e, pouco a pouco, restabeleceu a vida comunitária na
cidade. Fundou uma yeshivá, atraindo muitos estudiosos de países vizinhos.
O Ramban acabou mudando-se para Acre que era, naquele período, a principal
comunidade judaica em Eretz Israel.
O gênio criativo que caracterizou Nachmânides na sua juventude continuou
animando-o até o fim de seus dias. Na velhice, em Eretz Israel, escreveu um
famoso comentário sobre a Torá.
Quando Nachmânides teve de fugir da Espanha para Eretz Israel, seus
discípulos, alunos e seguidores imploraram para que lhes desse um sinal que os
fizesse saber a data de sua morte. Ele respondeu que seria no dia em que o
túmulo de sua mãe fosse dividido. Muitos anos depois, seus alunos encontraram
uma fenda no local onde estava escrito "O Mestre desapareceu". Isso ocorreu em
1270, ano da sua morte.
O local de seu túmulo é desconhecido. Há varias lendas: alguns acreditam que
tenha sido enterrado aos pés do Monte Carmel, outros, em Haifa ou quem sabe em
Jerusalém...
O rabino Moisés Ben-Nachman enriqueceu o mundo judaico com tesouros
espirituais de grande valor. Seus próprios filhos e discípulos ganharam fama
através de sua sabedoria, seus ensinamentos e pelos seus trabalhos. Ele
continua vivo na memória de todo o povo judeu.
Deixou várias cartas como legado espiritual para seus filhos. Uma delas
escrita em Jerusalém, no fim de sua vida a seu filho Nahman, segue abaixo. A
carta passou a ser inclusa em muitos Sidurim e transformou-se em uma epístola
do povo judeu.
Nachmânides
- "O Ramban"